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Trechos extraídos do suplemento
Folha Turismo do Jornal Folha de São Paulo do
dia 30 de junho de 1997
"Um dos mais característicos poemas
de Robert Frost e sua nostálgica geração
se refere a 'duas estradas que divergiam em um bosque amarelo'.
Ele opta por aquela menos percorrida, menos procurada e, ao fim,
parece, com um suspiro, se arrepender. Tudo bem, há vários
tipos de turistas.
Há aqueles que vão sempre para
Paris ou Londres; há aqueles que vão fazer compras
em Miami.
Mas também há aqueles que procuram
caminhos menos repisados. Talves porque percebam que, com isso,
mobilizam sua própria curiosidade e conduzem sua imaginação
a alturas imprevistas.
Talvez o homem não consiga compreender
a si mesmo sem mapear a infinita diversidade de suas manifestações
culturais. Assim, se o leitor é dessas inteligências
movidas por desejo de autocompreensão, não se arrependerá
ao eleger a Indochina e Myanma, antiga Birmânia, para uma
viagem.
O nome Indochina é atribuído
a um conjunto de três países: Vietnã, Laos
e Camboja. A Tailândia, Myanma e a Malásia não
são considerados como parte da Indochina, embora ocupem
o mesmo sub-continente.
Cada um desses países fala uma língua
diferente, de troncos linguisticos distantes. São culturas
bastante diferenciadas mas há alguns pontos em comum.
Em primeiro lugar, é bom saber que as
acomodações, embora não sejam luxuosas como
em Hong Kong ou Bancoc, são aceitáveis e baratas.
A comida também é pouco cara e saudável.
A segurança é excelente. Não
há roubos ou agressões. Estrangeiros são
sempre bem-vindos, até em cerimônias religiosas,
o que não acontece em outras regiões como a Índia
ou Bali, por exemplo.
Para os interessados indicamos os guias da
série "Lonely Planet", que existem em inglês
e francês."
Myanma
"O turismo em Myanma (nome atual da Birmânia)
se concentra na região de Mandalay, onde fica Pagan, e
na capital, Yagon (a antiga Ragun), mas há inúmeros
outros locais de interesse.
Para uma estada de uma semana ou dez dias,
entretanto, é aconselhavel se concentrar em Mandalay-Pagan
e Yagon.
O mais notável centro religioso se encontra
em Yagon, o fascinante pagode Shwegadon, com seu domo de ouro,
e dezenas de outros templos e estátuas de deuses.
Em Myanma, o turista terá de tirar não
somente os sapatos ou chinelos, mas até as meias, e não
apenas para entrar no templo, mas mesmo para deles se aproximar,
pois o solo vizinho é sagrado.
No Shwedagon, mesmo os materialistas ferrenhos
devem passar algumas horas, pelos menos uma tarde até o
anoitecer. Só assim você compreende esta religiosidade.
Em Yangon os visitantes também terão
a oportunidade de visitar fábricas de papel dourado.
O ouro é essencial para a expressão
religiosa própria dessa crença complexa, pois é
esterno, imutável.
Em Mandalay, encontra-se um outro mundo. Talvez
possa o visitante descer o exuberante Irrawaddy. A vida corre
por este rio.
Do barco, o visitante observará o trabalhos
dos búfalos nos campos de arroz, a coleta de areia, as
pequenas vilas, crianças brincando, a pesca e as monumentais
concentrações de templos brancos, dourados ou de
pedra fosca."
Camboja
"Para evitar problemas, o turista deve
se restringir a Siem Reap (onde floresceu o período khmer
e são encontrados alguns dos feitos humanos mais fabulosos
de todos os tempos) e a Phnom Penh.
No apogeu do Império Khmer, do século
11 ao 13, foram erigidos a cidadela e o palácio de Angkor
Wat w Angkor Ton.
Para entender essa suprema arte arquitetônica,
e também sua cultura, é preciso saber que originalmente
a religião khmer era uma forma de budismo profundamente
impregnada de hinduísmo harihara, na qual Shiva e Vishnu
integravam uma única divindade.
Mais tarde, durante a construção
de Angkor Wat, notam-se esculturas de deuses hindus reformadas
em Budas a meio caminho do seu término. Essa é a
marca de ressurgimento do budismo teravada.
De forma simplificada, podemos ver esse período
como uma conversão do hinduísmo (embora budístico)
para o budismo mais ortodoxo de Sidarta Gautama.
É também um período de
grandes conflitos com civilizações vizinhas, o Império
Champa, do Vietnã o o dos Tais, da Tailândia.
Mas eis que ocorre mais um desses mistérios
que numca entenderemos. Subitamente, os habitantes de Angkor abandonam
essa região rica e se mudam para o sul, para a região
da atual Phnom Penh.
O turista encontrará então dois
mundos maravilhosos. A cidadela de Angkor Ton, monumental, fantástica,
os altos relevos de Bayon, sem igual no mundo, e esse imenso templo
de Angkor Wat, igualado só por Borobodur, em Java.
O mundo de pedra cinzenta, sóbria, de
um lado, e, de outro, em Phon Penh, o brilho dourado dos templos
e palácios.
E, no fundo, a beleza de uma natureza que se
recompõe da devastação causada por bombardeios
infames e guerras civis totalmente insensatas."
Vietnã
"Quem visita hoje o Vietnã não
compreende duas observações imediatas. Como o norte
vencedor continua pobre, e o sul derrotado está ainda mais
rico ? E como pôde esse povo destituído de tudo derrotar,
em guerras sucessivas, a rica França, a todo-poderosa América
e a gigantesca China ?
No Vietnã, em toda a Indochina e em
Myanma, riqueza se mede pela razão entre motocas e bicicletas.
Todas importadas do Japão e usadas.
Em Hanói, no norte do Vietnã, para cada motoca (geringonça
um pouco menor que uma motocicleta e um pouco maior que uma bicicleta
motorizada), há dez bicicletas na rua.
Em Saigon, no sul, para cada bicicleta, há
dez motocas. Segundo muitos vietnamitas, a razão para a
disparidade entre norte socialista e o sul de inclinação
capitalista, mas governado pelo norte, é a qualidade da
terra.
Enquanto o norte o arroz é colhido em
áridas terras montanhosas 1 vez por ano, no sul os vales
e deltas permitem de 2 a 3 colheitas. E atrás do arroz
vem o resto.
Há ainda uma cultura mercantilista em
Ho Chi Minh (ex-Saigon) que não existe em Hanói,
diriam os liberais. Talvez seja verdade.
Apesar da pobreza, Hanói é uma
cidade cativante.
Mas o que mais encanta é a impenetrável
resignação dessa sociedade guerreira e paciente.
Uma população sem ressentimentos,
transbordando de serena boa vontade. Talvez por causa da tolerância
budista que impregna a filosofia de vida dessa sociedade."
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